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ORIGENS - Sinopse

             
                              


                                Grândola – Vila Morena


                                            
 Naquela tarde de calor, num dia do mês de Julho. João entrou na barbearia do compadre Rosmaninho. Um cheiro a água de colónia barata pulverizada a partir de um frasco, com uma borla de borracha, para ser bombeada manualmente, inundou as suas narinas! Dáva-lhe, um certo prazer estar alí, -   quem quizesse saber das  últimas novidades da vila era  naquele local, que encontraria, certamente, a informação desejada. A cadeira era própria para  a prática do oficio - metálica, arredondada e pintada de branco, com alavancas para proporcionarem as posições pretendidas. Nela, sentavam-se os clientes defronte de um espelho estendido a todo o comprimento do balcão, em pedra mármore onde  estavam todos os utensilios, bem à mão. Envolto numa grande toalha branca apertada à volta do pescoço encontrava-se um cliente, meio adormecido pelas massagens do pente a passar  pelo coiro cabeludo ao som ritmado do  abre e fecha da tesoura junto dos ouvidos. Estes movimentos repetidos só eram interrompidos quando, sùbitamente, havia uma paragem do mestre barbeiro, para  voltar-se com gestos largos a reforçarem, enfàticamente, algumas palavras do discurso que, entretanto, estendia aos que aguardarvam, sentados na cadeira corrida, junto à parede de azulejo branco. O tema dessa tarde  era a política! -   Salazar queria  fazer do Alentejo o celeiro de Portugal, pretendendo iniciar uma prática de incentivos à produção do trigo, em alta escala. 
João gostava de ouvir a conversa daqueles compadres. Estava interessado naquela informação das políticas do Estado Novo. Dizia respeito ao futuro do patrão e, consequentemente, ao  dele também. Tinha 27 anos, todos eles curtidos na propriedade das Fontaínhas, onde o velho patrão, o Sr. Afonso, grande latifundiário da região, dera-lhe a mão desde muito novinho,logo que terminara a instrução primária e a pedido da sua mãe, pô-lo a trabalhar nas suas propriedades. Entretanto, foi vendo nele grandes qualidades em dedicação e inteligencia. Era de compleição física bastante forte, boa estatura, tisnado pelo sol e bem parecido. Começou a lidar com as máquinas agricolas numa das herdades do patrão, desde muito novo,  logo que este começou a deixar para trás os bois e as charruas de madeira, à medida que iam dando lugar aos tractores e às enormes debulhadoras, numa nova filosofia de produtividade que muito apreciava nele, contangiando-o na ânsia da inovação!
 Compadre Rosmaninho achava que ele tivera sorte na vida, pois trabalhava para um homem de grande envergadura patrimonial e de respeito na região, não só em Grândola como, ainda, em todo o Alentejo. João era inteligente e compensava a simpatia do  sr. Afonso, em grande dedicação e trabalho, não tanto pela jorna que era pequena mas, mais pelas modormias que lhe eram disponibilizadas, sendo uma delas, em poder habitar, com a sua mãe,  numa das casas existentes dentro da herdade, e explorarem uma boa porção de terra no cultivo de produtos hortículas que, a mãe, afincadamente, sustentava com o seu permanente trabalho, obtendo um rendimento muito satisfatório além da substancial ajuda no fornecimento dos avios da sua casa e, também, do patrão Afonso.
Amílcar, concordava com  Rosmaninho movendo a cabeça para cima e para baixo em sinal de aprovação à  conversa do compadre ao pronunciar-se sobre a sorte do João – tinha ali o futuro dele garantido, assim tivesse juízo! já o mesmo não acontecera com ele, não por falta de  tino mas sim pela má sorte que  o obrigou a saír, muito novinho, da terra, deixando para trás toda a família e com a instrução primária incompleta, para empregar-se como aprendiz e moço de fretes, numa alfaitaria em Setúbal. Aí, viveu numa casa muita velha, cheirando a mofo e povoada de baratas, situada numa rua tão estreita que, o sol,  nunca entrava, na companhia de uma tia, viuva, terrivelmente severa e de mau feitio, a tresandar a peixe por todos os poros do corpo, por trabalhar numa das diversas fábricas de conservas, ali existentes.Todos os Domingos era habitual embebedar-se  e descarregar nele, por tudo e por nada, sem saber porquê, todas as amarguras da vida,chegando-lhe constantemente a roupa ao pelo, praguejando em grandes gritarias recheadas de palavrões de alto calibre que, ditos por ela, eram autenticas obscenidades. Cobrava-lhe grande fatia do seu magro salário. O carinho que tinha era-lhe dado, fartamente, pelas prostitutas que formigavam pelas ruas por onde passava. Tudo aturou, paciente e resignadamente, porque tinha com ele um sonho – regressar à sua terra, com algum dinheiro no bolso! Muitos sacrificios e, até muita fome tinha passado, para conseguir amealhar uns tostões.  Aprendera a arte do corte, mercê da disponibilidade do patrão, por ter muita pena dele e reparado no interesse que sempre tinha demonstrado em aprender a arte, mesmo quando, no inverno, com os dedos das mãos a sangrarem pelas feridas das frieiras, do muito frio que passava. Mesmo assim, insistia em pegar na agulha com sofrimento e alinhavar as entretelas das várias peças de tecido, cortadas pelo patrão. Esta postura de sacrificio e coragem deu-lhe a oportunidade de poder regressar à terra alguns anos depois, com a arte de corte aprendida e poder,assim, realizar dois grandes sonhos:  o primeiro  era o de casar com a rapariga que conhecera desde pequeno e  que se dedicara, entretanto,  à arte da costura, o segundo:abrir um estabelecimento de alfaiataria dirigida a uma clientela dos grandes senhores quer da terra quer ,ainda, dos que vinham de fora. Começou, a dar seguimento, a uma estratégia de grande exito: a confecção de capotes alentejanos!   Foi o rastilho para o sucesso - os dois bem unidos, conseguiram viabilizar  os sonhos que, ele,  desde muito pequeno, sempre tivera  - poder prosperar na sua propria terra!

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